10 de set de 2024

Cerca de 31.229 km rodados, 135 apresentações realizadas em 166 cidades de cinco países: Brasil, Uruguai, Argentina, Chile e Paraguai. Assim foram os dois últimos anos dos artistas circenses que compõem a companhia Laguz Circo e Teatro: Felipe Abreu Pereira, natural de Fortaleza, e Romina Sanchez, da Argentina.
Essa jornada, intitulada de “Travessia Ceará – Patagônia”, teve início em julho de 2022 e ocorreu em uma kombi adaptada como motorhome. O destino era a Patagônia, local onde Romina já viveu. Entretanto, a viagem foi além, tendo como ponto final Ushuaia, a Terra do Fogo.
A ideia não surgiu de forma repentina. Em 2015, o casal já havia realizado uma viagem de carro, de Florianópolis à Fortaleza, em um Fusca. Na época, Felipe sugeriu que o próximo desafio fosse ainda maior, indo à Argentina em uma kombi.
Em 2018, os artistas compraram uma kombi, modelo 2012, para facilitar a produção de espetáculos. No entanto, foi a pandemia que trouxe a reflexão necessária para tirar o sonho da gaveta. Com o setor cultural paralisado, a dupla encontrou no Parque Adahil Barreto, em Fortaleza, um espaço para realizar apresentações ao ar livre, seguindo todos os protocolos de segurança. Assim, conseguiram investir na transformação da kombi em um motorhome.
A ajuda do público foi fundamental. Além das apresentações, o casal lançou um financiamento coletivo que permitiu a compra de um reboque. O automóvel contava também com uma placa solar.
“Passamos um ano inteiro assistindo a vídeos de motorhomes no YouTube, decidindo como adaptá-la às nossas necessidades. Com apenas três ferramentas – parafusadeira, lixadeira e anticorte –, montamos nossa casa sobre rodas. Pensamos em cada detalhe, minimizando ao máximo o que levaríamos para otimizar o espaço. A Kombi acabou se tornando mais do que um meio de transporte; ela é nossa casa, nosso refúgio e parte da nossa identidade”, conta Romina.
Com o motorhome pronto, Felipe e Romina partiram em uma viagem que estava prevista para durar um ano, mas se estendeu por dois. Para a jornada, os artistas fizeram um desapego completo, devolvendo a casa alugada e vendendo ou doando todos os pertences.
A pré-produção foi essencial para garantir apresentações e, quando centros culturais ou secretarias de cultura não estavam disponíveis, os campings se tornaram uma alternativa viável. Em troca de hospedagem, o casal realizava apresentações e “passava o chapéu”, uma prática muito antiga feita por artistas itinerantes para receber contribuições.
O sul do Brasil se mostrou particularmente desafiador, levando o casal a adaptar suas estratégias e explorar diferentes formas de alcançar o público. No trajeto pela Argentina, locais independentes, ONGs e bibliotecas abriram suas portas para acolher os artistas.
Toda a jornada rumo à Patagônia foi percorrida na companhia da Lamparina, cachorrinha dos artistas, que os acompanha desde os dois meses de idade. Atualmente com 9 anos, ela já explorou diversas regiões do continente com os seus tutores.
Romina conta que um dos momentos mais memoráveis da viagem ocorreu quando o casal conseguiu uma permissão especial para que Lamparina embarcasse no “Trem do Fim do Mundo”, uma atração que normalmente não aceita cães. “Neste dia, um vagão foi liberado para que Lamparina aproveitasse o passeio com a gente. O staff do trem ficou encantado com a sua presença e quis registrar o momento inusitado com fotos”, conta.

Os artistas planejam explorar novas oportunidades, que os permitam continuar viajando e apresentando seus espetáculos de forma mais estruturada, obtendo apoio por meio de editais e subsídios. “Atualmente, as oportunidades de apoio são limitadas a alguns formatos, como sedes do SESC e instituições culturais locais em regiões que visitamos, muitas cidades não possuem secretarias de cultura eficazes”, explica Felipe.
Após a jornada, Romina e Felipe destacam que aventuras como essa, levando a arte para outros públicos no Brasil e em outros países, precisam ter apoio do poder público.
“A partir desta experiência, vimos que é preciso que haja editais específicos para artistas itinerantes, que não exigem comprovante de residência e que possibilitem a continuidade do trabalho mesmo em cidades pequenas”, comenta Romina.
Agora em Fortaleza, a dupla segue morando no motorhome, tendo a casa de amigos como apoio para realizar atividades cotidianas. Os artistas retornaram da viagem com ideias como um livro infantil, um novo espetáculo e até um jogo de tabuleiro didático.
Para melhorar a experiência na estrada, pensam em fazer mudanças no estilo de vida e também no automóvel. A ideia é viver de forma mais tranquila e devagar, planejando viagens de curta distância e passando mais tempo em cada lugar. Esse ritmo permitirá estabelecer uma rotina, manter treinos necessários para os espetáculos e adaptar melhor o dia a dia às condições de cada lugar.